A história dos serviços públicos em muitos países envolveu um embate de longa duração entre interesses econômicos forcejado pela sua privatização e uma imposição de marcos regulatórios governamentais de abrangência variável. Este conflito também ronda a eletrificação no Brasil, desde que, ao final do Império, companhias geradoras deram seus primeiros passos no país. O capital nacional foi pouco a pouco vencido ou cooptado por multinacionais, no início interessadas também em outros serviços tais como transportes, iluminação a gás, água, telefonia.
Favorecendo sua imensa rede hidrográfica e topografia favorável, o país fez opção pela geração hidrelétrica, a chamada “hulha branca”, o que acirrou disputas pelo direito de explorar o potencial dos rios, muitas vezes demarcações de fronteiras interestaduais, ou cursos que passavam por extensas propriedades particulares. Objeto de intensos debates parlamentares desde o início da República, o Código de Águas foi finalmente promulgado em 1934, mas os conflitos não cessaram.
A partir do final da Segunda Guerra Mundial e especialmente no segundo governo Vargas, a crise no fornecimento de energia elétrica levou a uma polarização das classes sociais, desta vez em torno da criação de uma nova estatal de âmbito nacional. Os setores privatistas não a queriam, aliados às empresas estrangeiras, que por sua vez se desinteressavam em aumentar a geração. Os nacionalistas viam-na para além de um agente regulador, defendendo a entrada do Estado na geração e transmissão de eletricidade, além da fabricação de equipamentos. O que se seguiu foi uma verdadeira guerra, contada aqui com maestria por Marcelo Squinca da Silva, historiador do setor brasileiro de energia elétrica.
O resultado da disputa foi a criação da Eletrobrás em 1962, com o desfecho irônico de que sua direção foi entregue a representantes do setor privatista, mais um exemplo da “modernização conservadora” de nossa história. Mesmo assim, houve um salto qualitativo imenso